Das revoltas de 1968 às mobilizações estudantis de hoje

Evandro Colzani
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Em uma entrevista publicada no Estado de São Paulo, no dia 13 de maio, um dos ícones do maio francês, Daniel Conhn-Bendit, afirmou que comparar o maio de 68 com os movimentos que ocorrem atualmente é algo “inútil” e “anacrônico”, pois “não há mais nada de Maio de 1968”.

Longe de ser anacrônica, a comparação de 1968 com 2018 pode auxiliar a juventude e a classe operária nos diversos combates que se travam em países como Brasil, Argentina, Venezuela, Nicarágua, EUA, Grã-Bretanha, França, Paquistão, etc. Há algumas características centrais de 68 que são a chave para entender a tarefa dos marxistas na atualidade.

Aliança Operário-Estudantil

Uma das ideias propagadas pela burguesia é a de que o maio francês foi um movimento puramente estudantil. Entretanto, a força do movimento foi justamente a unidade dos estudantes com os trabalhadores que iniciaram a greve geral que abalou as estruturas das instituições francesas da época.

O exemplo de uma debilidade nesse sentido, podemos encontrar no México, em 68, onde um movimento estudantil massivo nas escolas e universidades ganhou a simpatia da classe operária, que organizou greves e manifestações em solidariedade, mas não foi capaz de unir a luta.

Erro semelhante, com proporções distintas, cometeram as direções estudantis da UBES, UNE e sindicatos dos trabalhadores em educação, durante as ocupações de escolas contra a Reforma do Ensino no Paraná em 2016, onde havia a possibilidade de nacionalizar a luta e impedir a aprovação da reforma através da unidade do movimento estudantil e sindical.

A aliança entre trabalhadores e estudantes fortalece a luta pela manutenção dos direitos e contra o capital. Se o ânimo e o espírito revolucionário da juventude são elementos que garantem as primeiras vitórias do movimento, somente a entrada da classe operária em cena pode garantir a vitória definitiva, pois o proletariado é a única classe genuinamente revolucionária.

A crise da direção

Quando jovens e trabalhadores tomaram as ruas de Praga, capital da Tchecoslováquia em 68, reivindicando melhores condições de vida e de trabalho, conquistaram inclusive a solidariedade dos soldados soviéticos que foram enviados a mando da burocracia stalinista para esmagar o movimento. Na França, Charles De Gaulle declarou, no momento mais crítico da revolução, que “em uma semana os comunistas estarão no poder”. Mas o que permitiu que tudo “voltasse à normalidade” se em todos esses países a burguesia não cedia e reprimia violentamente os que se rebelavam?

Foi a ausência de uma direção ou a existência de uma, mas traidora, que salvaram o capital ou o regime burocrático tchecoslovaco. Essa é a questão chave apontada por Leon Trostky já em 1938, no Programa de Transição, e que permanece sendo o principal fator atualmente.

Um exemplo atual, ligado à questão da juventude, pode ser visto nos movimentos nas universidades públicas brasileiras. Na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), há uma ameaça de aumentar de R$ 1,00 para R$ 11,00 o valor do Restaurante Universitário (RU). Quando a reitoria anunciou a medida, os estudantes recorreram às suas entidades e começaram a pressioná-las para que se organizasse uma greve estudantil para barrar o aumento. O DCE, dirigido pela UJS, se negou a organizar qualquer combate e só chamou a assembleia que aprovou a greve quando uma parte dos cursos já estavam paralisados, pois os estudantes fizeram com que os Centros Acadêmicos tomassem a iniciativa. Novamente, são as direções do movimento estudantil o obstáculo.

Essa é uma questão que somente o movimento estudantil e operário podem resolver. As atuais direções serão testadas, descartadas, se não cumprirem o seu papel, e novos dirigentes devem surgir no decorrer da luta. Os marxistas devem atuar na luta de classes para ganhar a confiança das bases, tornar-se uma referência no movimento capaz de exercer influência nele.

A luta de classes é internacional  

Não é apenas no Brasil, mas em todo o mundo que podemos encontrar exemplos das lutas da juventude que podem e precisam aprender com 68. Basta ver o movimento de secundaristas nos EUA que, apesar da defesa de uma pauta confusa (pelo desarmamento), demonstram toda a insatisfação presente na sociedade norte-americana. Na Grã-Bretanha os jovens participaram entusiasmados das eleições municipais esse ano, votando no Labor Party, em Corbyn, organizando assembleias, debates etc, não porque acreditavam que as eleições iriam resolver algo, mas porque viram nesse  processo a oportunidade de expulsar os Conservadores, dar um fim à austeridade e começar a mudar a sociedade para melhor.

Se há algo anacrônico em toda essa história é o “ícone do Maio de 68” e o regime que ele defende. Ironicamente Conhn-Bendit se intitula um reformista, porém o que ele afirma ser reformismo não existe mais na era de decadência do capital, o reformismo clássico de Bernstein e seus contemporâneos também é anacrônico.

Nós celebramos o ano de 1968 assim como Marx, Engels, Lênin e Trotsky celebraram revoluções que não foram vitoriosas, mas que deixaram sua marca, suas lições próprias e foram as bases para as revoluções posteriores. Que a juventude e a classe trabalhadora aprendam as lições de 68 e as utilizem para conquistar hoje o que milhares buscavam nas ruas, nas escolas, nas universidades e nas fábricas de Paris, de Praga, do mundo inteiro.

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